Idealização narrativa de projeto

A maçaneta era pequena, mas podia ser vista de longe por olhos que ansiavam por descanso, como os meus. Eu conseguia vê-la, mesmo na escuridão da madrugada e avançava a passos decididos em sua direção, sentia o alívio de finalmente estar tão perto de girar aquela pequena esfera dourada e novamente me sentir protegido, me sentir em casa.
O caminho entre o pequeno bosque e minha casa costumava ser mais longo, mas naquele momento, os passos pareceram nem existir. Num instante estava saindo do carro, em outro já estava dentro daquela casa. Assim que entrei, senti o cheiro amadeirado de pinheiro misturado com o cítrico da laranja, era o cheiro que me confortava a algum tempo, o cheiro de casa.
Não acendi as luzes, apenas senti a brisa fria de uma casa que ficou durante algumas semanas fechadas, ela percorria por entre os vultos de móveis ao meu redor posicionados exatamente onde eu os deixei. Tudo era cinza, negro e frio naquele momento, mas eu conseguia sentir um calor emanando em mim por estar no lugar de que eu mais gostava.
Após alguns instantes observando os arredores que não podiam ser vistos, eu andei bem devagar pela casa, tanto pela vontade de observar com mais atenção o espaço em que havia passado meus melhores dias, como por um receio de tropeçar em algo que poderia ter sido deixado fora do lugar. Mas meus pés me guiaram com precisão pela escuridão, até que cheguei no meu quarto, tateei por alguns instantes a madeira lisa da porta até encontrar a maçaneta. Quando entrei no quarto, novamente me senti invadido por aquela brisa fria e mais uma vez, não me importei. Apenas fui em direção à parede oposta para abrir as cortinas e apenas nesse momento percebi as malas que estavam na minha mão. Coloquei-as no chão, o som mudo do tecido contra o piso de madeira ecoou pelo silêncio que reverberava no lugar. Puxei um pouco as cortinas, o toque do tecido era áspero, aquela cortina não era minha preferida, na verdade não gostava dela, mas era como aquelas pessoas que, por mais que reclamamos durante horas, no fundo criamos um apego e não conseguimos viver sem.
Pela janela, eu conseguia ver a Lua que já se encontrava cheia, sentia a energia mística trazida por ela, via seus feixes de luz passando por entre as árvores mais à frente. Era uma visão incrível.
Percebi, com as mãos sobre o batente da janela que já estava bastante cansado, dei as costas para a janela, mas mantive as cortinas abertas, queria dormir sob o brilho da lua. A cama, baixa se encontrava no centro do ambiente, não era uma cama convencional, como vemos geralmente. O colchão grande se encontrava elevado em uma espécie de pedestal numa altura de 40 ou 50 cm e era apenas nisso que consistia minha cama
À medida que eu me deitava, sentia um cheiro adocicado vindo dos lençóis, um sorriso se formou nos meus lábios, eu sabia de onde o cheiro misterioso vinha... dormi com aquele sorriso, sentindo o ambiente se aquecer ao meu redor e a noite entrar pela minha janela.

Quando abri os olhos, o espaço era bem diferente, a luz invadia meu quarto criando uma atmosfera nova, a única coisa que se mantinha da noite passada era aquele cheiro. Novamente sorri, mas não me demorei na cama, me levantei e, novamente, fui em direção à janela, abri o resto da cortina que reluzia sob a luz do dia, também empurrei o vidro, ele deslizava com facilidade me trazia o som dos pássaros e o vento morno da manhã.
Graças ao brilho do sol que invadia o ambiente, agora podia observar meu quarto com mais atenção. A única coisa que sentia ao passar meus olhos pelo quarto, era uma calma absurda que quase gritava naquele lugar. O quarto era bem amplo e a maior parte do espaço dele vazia, dando espaço par o piso de madeira e as paredes claras se mostrarem e todo seu esplendor, exceto na parte onde havia jogado minhas malas noite passada.
Me direcionei para um dos cantos do quarto, onde uma arara dava sustentação para algumas peças de roupa, vesti algumas peças bem leves e saí do quarto.
Logo percebi, que não era apenas a atmosfera do quarto que mudou na transição da noite para o dia, a iluminação dava uma cara nova à sala, os móveis não eram mais vultos em meio à escuridão, eles reluziam, com o brilho do sol que invadia a casa e expulsava dali a brisa gélida da noite. A mobília parecia conversar entre si, o material de sua composição era bem próximo, as cores em tons terrosos, contribuíam para cria um ambiente gostoso que me convidava a passar o dia todo ali jogado entre aquelas almofadas. Mas eu tinha outras coisas para fazer antes de aproveitar aquela sala.
Me direcionei ao corredor, ele possuía os mesmos tons da sala e servia como uma extensão dela. Sua iluminação vinha de janelas altas, e os raios de luz que entravam por elas encontravam as partículas de poeira flutuando no ar e tornavam a curta caminhada pelo corredor nada menos que etérea.
O percurso foi de fato curto, a porta que eu procurava já estava diante de mim, o espaço ali também era bastante reconfortante e se assemelhava muito ao meu quarto, mas com ainda menos mobília. Dessa vez, só havia um pequeno tapete no centro e duas mesas em cantos opostos com frasquinhos e plantas. Após alguns alongamentos, me direcionei ao tapete e ali comecei a fazer algumas posições de yoga. Fiquei praticando até me cansar. O que aconteceu mais rápido do que eu esperava. Uma pequena decepção. Após um último alongamento deixei a sala de yoga e seus cheiros frescos para trás.
Fui para a próxima porta do corredor. Lá dentro havia a presença forte de tons de marrom e cinza, que contrastavam com a sensação fria que os azulejos e cerâmicas traziam para o banheiro. Os meus passos ecoavam no lugar que também era iluminado pelo sol. Enquanto tomava um banho rápido e observava o ambiente, era embalado pelo frescor que ele transmitia, continuei com essa sensação enquanto me secava, enquanto escovava meus dentes, enquanto vestia um roupão e até mesmo enquanto saia do banheiro.
Dessa vez, percorri o corredor no sentido oposto, voltando para a sala e seguindo para a cozinha. Ela era ao mesmo tempo ampla e compacta, tinha um brilho todo especial e era um lugar adequado para conversar enquanto preparava alguma coisa, sim, nessa cozinha cabia mais de uma pessoa, o que é um detalhe muito importante. Abri a geladeira e peguei um pouco de água que virei em um copo que estava próximo, na bancada de pedra que percorria uma das paredes da cozinha. Deixei o copo ali e fui até o armário em amarelo claro que repousava em uma das extremidades da cozinha. Peguei algumas coisas, montei um lanche rápido e me sentei por alguns instantes na mesa com tampo de vidro da cozinha, olhei por uma das muitas janelas dispostas no espaço, só conseguia avistar a natureza, nada de carros, ou prédios, nada de concreto ou asfalto, apenas o verde e o azul era visto pelo vidro.
Passei mais um tempo observando pela janela enquanto checava se tinha algo para fazer naquele dia. De acordo com minha lista mental, não havia nada. E por mais que ela costumava estar sempre errada, fingi que estava tudo bem. Teria o dia todo livre, o que era ótimo. Fiquei ainda mais alguns instantes observando a vista, mas me levantei e percorri a casa em busca de algo para fazer. Enquanto fazia um tour pela minha própria casa, uma das portas fechadas praticamente clamava pelo meu nome e algo dentro de mim desejava muito ir até ela. Eu fui

Quando a abri, uma profusão de cheiros me invadiu, vieram do espaço misterioso e mais escuro do que todos os outros cômodos da casa, ali era um ambiente projetado para a noite e ele fazia questão de trazer um pouco dela para o dia. Andei em passos delicados até um canto da parede e abri levemente as persianas, deixando um pouco de luz invadir o espaço, traçando padrões por entre os livros nas estantes, e os frascos multicoloridos presentes em praticamente para todos os lugares em que se olhava, peguei um deles e balancei levemente. Ainda não estão prontas, pensei. Deixei o frasco no mesmo lugar e me direcionei ao móvel de madeira próximo à uma das paredes, risquei um fósforo, o som foi um guincho agudo no espaço cortando o silêncio como navalha e revelando com seu brilho amarelado, a forma do altar a minha frente. Com o fósforo acendi três velas e três incensos. Tateei pelo altar que dominava o ambiente até encontrar um pequeno vão na peça e de lá retirei um saco preto fechado, desatei o nó e tirei um livro pesado, meu Livro das Sombras. Enquanto procurava pela página certa sentia o cheiro transmitido por ele invadir o ambiente, se misturando à fragrância de muitas ervas. Proclamei um poema, minha voz ecoou contra as estantes de madeira, Agradeci à Sucellus e à Nantosuelta e percebi que ali, naquela casa, eu poderia viver o resto da minha vida e que ali, eu poderia morrer feliz.

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